15/10/2012

Ao mestre, com amor.

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Imagem: arquivo pessoal.

Não sou professora por vocação. Poderia dizer que segui a profissão por falta de opção. Moradora de cidade pequena, com poucas opções, um curso semi-profissionalizante de Magistério e a possibilidade de um concurso público, juntos, me trouxeram para este caminho. No entanto, em nenhum momento, me arrependo das escolhas que fiz. 

Por mais que esta não seja a profissão dos meus sonhos, sempre tive orgulho de ser o que sou: professora. Trabalhei minha vida toda (e aqui faço parecer que tenho mais do que meus 29 anos) em uma escola de periferia, com todos os problemas e desafios que uma escola assim nos traz. Sim, somos mal pagos. Sim, as famílias estão a cada dia mais desestruturadas, o que reflete diretamente na escola. Sim, está cada dia mais difícil prender a atenção dos alunos. Sim, sim, sim. 

Mas nada, NADA nesse mundo todo paga aqueles olhinhos brilhantes cheios de amor por você a cada dia. Detesto acordar cedo, mas toda minha má vontade sumia ao chegar e ver aquelas carinhas correndo em minha direção para um abraço onde faltava espaço para tantos corpinhos.

Sempre houveram dias difíceis. Ora um aluno chegava com a pá virada e, num arroubo de raiva, tentava jogar cadeiras ou classes em outro colega. E eu me punha no meio. Já levei socos, pontapés e empurrões nessa coisa toda de separar brigas. Mas sei que nenhum foi direcionado a mim. Já ouvi xingamentos de todos os tipos, dirigidos a mim, por um aluno insatisfeito e cheio de raiva. Que me irritava apenas até o momento em que o punha no colo e entendia lá no fundo que tudo tinha uma razão fora daquele instante. Já fui xingada por pais, ameaçada por alunos grandes quando com raiva. A violência bate na nossa porta, e entra porta a dentro, nossa moral está cada dia mais baixa, não somos mais respeitados como antigamente. E ainda sim insistimos na educação.

Da mesma forma como encontrei colegas determinados, criativos e apaixonados, encontrei tantos outros que mal ocupavam a mesa grande da sala, que não tinham amor nem pelos alunos e que apenas estavam lá pelo dinheiro que, por ser pouco, tirava deles a vontade do mínimo esforço por um trabalho decente. Mas a maioria dos colegas que encontrei, ainda que cansados da rotina estafante de um professor, faziam seu trabalho com muita competência.

Para minha prática, nada perfeita e necessitando de muito preparo, me espelhei em tantos professores que passaram pela minha vida. Como a professora da terceira série, que era esperada por nós desde que chegamos à primeira série. Todos queriam chegar logo à terceira série, só para ser alunos dela.Também tive professores que implicaram comigo, ou por não gostarem de mim, ou por não gostarem dos meus pais.

Mas mesmo estes maus exemplos pautaram minha prática. No bom, me espelhei. No ruim, aprendi o quanto é ruim passar por isso, e evitei dar aos meus alunos esse tratamento.

A rotina de um professor é estafante. E isso falando em professores que trabalham apenas dois turnos (conheço muitos que trabalham nos três turnos), e que não reutilizam o mesmo caderno ano após ano. Para uma aula de 4 horas, é necessário pelo menos metade do tempo de planejamento. A maioria tem família. Ou seja, do tempo que sobra uma parte vai para planejamento das aulas, outras para a família. E ainda há o tempo necessário para cuidar da casa, cuidar da alimentação da família e tudo o mais. Não é uma vida nada glamourosa. 

Por conta desse conjunto de problemas, e vários outros, a cada ano que passa menos pessoas se arriscam em cursos superiores na área da educação. E muitos dos que se arriscam, desistem no meio do caminho. Faço parte do grupo que, apesar de amar os alunos, não tem mais peito suficiente para aguentar os demais problemas. Estou há pouco mais de 2 anos trabalhando em um setor administrativo, e só agora consegui parar com a medicação para ansiedade. 

Por saber das dificuldades que o magistério traz, admiro muito meus colegas que estão dia a dia na sala de aula. E desejo, do fundo do meu coração, que eles possam ser valorizados. Estar em sala de aula é gratificante, mas é desafiador. E só quem está ou esteve lá, dia após dia, sabe dos desafios da educação. E sabe o quanto o país ainda precisa crescer nesse ponto.

E só posso desejar a essas pessoas corajosas e de bem que tenham uma carreira abençoada, e que possam ser valorizados como merecem. Porque eles merecem muito.

Feliz dia do Professor!
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