04/03/2014

Abstinência e ansiedade

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Correria, correria, correria. E como se não bastasse a correria, a gente ainda precisa enfrentar os problemas pessoais que surgem no meio do caminho. Bom, faz parte. 

Há muitos leitores novos por aqui, então decidi falar um pouco de uma questão que enfrento há mais de 10 anos: a ansiedade. Vamos por partes.

Há pouco mais de 10 anos entrei para o "mercado de trabalho". Passei em um concurso público, fui nomeada e me tornei professora do Ensino Fundamental I. O cotidiano de qualquer profissional que trabalha com seres humanos é instável e emocionalmente difícil. Você precisa lidar com a instabilidade desse ser intrínseco chamado homem, e sua incrível habilidade de dificultar as coisas. Por outro lado, é gratificante ver como você é capaz de transformar a vida de alguém. 

O trabalho com crianças é desgastante. Não me refiro a crianças mal educadas, etc, etc. Eu sempre digo que não existe criança mal educada, existem pais mal educados. Mas o problema não é esse em si. É triste não ter seu trabalho valorizado. É triste ser tratado como o cocô do cavalo do bandido, pela sociedade, por grande parte dos pais dos alunos e uma parte considerável das administrações. Você precisa de resultados estáveis trabalhando com um público instável. Sempre trabalhei em escolas de periferia, e a realidade é ainda mais difícil. Mas não entrarei nos pormenores. O que acontece é que nosso psicológico é posto a prova a todo instante. É preciso de muita estabilidade emocional, ou de ajuda, para trabalhar com gente. 

Nesse clima, acabei engrossando as estatísticas das pessoas que sofrem do mal do século: transtorno de ansiedade generalizada. Inicialmente aceitei aquilo como inerente à minha profissão, ao cotidiano e levei o quanto pude sem ir ao médico. O stress já era parte da minha rotina, achei que fosse isso mesmo. No entanto, o quadro foi se agravando, até chegar a um ponto em que a conversa alta e incessante das crianças me deixava completamente atordoada. Não conseguia alinhar meus pensamentos, nem seguir uma linha de raciocínio. Parecia que havia uma micareta na minha cabeça. E as palpitações, e as tremedeiras e suores frios. Então, antes que prejudicasse meus alunos - que não devem sofrer por problemas particulares meus - busquei ajuda médica. 

Segui o caminho da maioria: primeiro fui diagnosticada com depressão. Depois, anos mais tarde, já com princípio de síndrome do pânico, muitos remédios depois, e 3 exames de gravidez negativos por conta de um atraso menstrual que o médico não aceitava como não sendo gravidez (nenhuma explicação minha sobre a improbabilidade de uma gestação contentou o médico), e troca de profissional, fui enfim diagnosticada corretamente. E comecei um tratamento longo, muito longo.

Comecei com citalopram, deveria fazer 6 meses de tratamento - que parei no 2º mês quando já estava ótima. Algum tempo depois, uma recaída muito, muito ruim, me fez voltar ao tratamento. Dessa vez, deveria segui-lo por um ano - parei aos 6 meses. Então, nova recaída, pior ainda, e novo tratamento, dessa vez seguido corretamente. 

Meu engorda-emagrece era constante. Quando vim morar aqui, fui a outro profissional, que me passou um tratamento à base de venlafaxina. Segui corretamente, mas cansei de ir a consultas apenas para pegar receita e parei o tratamento por conta. Então, conheci os sintomas da abstinência dessa droga, e precisei solicitar a primeira licença-saúde da minha vida. Tonturas, náusea, tremedeiras, taquicardia, fraqueza muscular, sensação de amortecimento geral, pressão oscilando, dores de cabeça e o efeito-rebote que faz você se sentir mais doente do que quando no início do tratamento. Mas aguentei firme e abandonei a droga. Meses mais tarde, com meus muitos kgs a mais, fui a um cardiologista depois de várias palpitações, e este disse que meu problema não era ansiedade, mas depressão - e lá fui eu pra fluoxetina, além de medicamentos para o coração. Me ajudou um pouco, mas não fez nada demais. 

No ano passado meu médico atual me pediu para voltar a usar a venlafaxina. Insisti em não querer usar, mas cedi e voltei. Com a venlafaxina, tudo parece ter solução: o mundo, os problemas, eu. É bem assim mesmo. A gente não se sente mais extremamente triste, mas também não se sente extremamente feliz. Tudo parece ter remédio, mas tudo parece ser igual também. Pedi para descontinuar a medicação, e o doutor insistiu que preferia que eu a utilizasse por muito tempo ainda, e disse que há pessoas que precisam usá-la pela vida toda. Eu não quero ser dessas! 

Então, na semana passada, mesmo em meio a tantos problemas (e esse ano tem sido campeão nesse quesito!), decidi mais uma vez parar a medicação. Como os comprimidos vêm em cápsulas, não em drágeas, o corte acaba sendo radical mesmo. E complicado. Aproveitei o feriadão. No primeiro dia, foi tudo relativamente ok. O segundo também. No terceiro comecei a ter um mal estar chato. No quarto dia, fui a um acampamento - falarei mais dele em outro post - e justo ali a coisa complicou. Além da rinite que chegou com tudo, a tontura e o mau humor tomaram conta. Mais de 300 pessoas e percebi alguns poucos, porque estava ocupada espirrando e sentindo meu nariz arder terrivelmente. 

Ontem foi um dia horroroso. Logo ao acordar me aconteceu algo muito ruim, que só eu sei o quanto está me doendo e sangrando ainda, por mais que eu queira esquecer. Por mim teria ficado na barraca  dia todo. Acabei ficando parte da manhã, quando saí, comi algo, tentei ficar entre o povo um pouco, mas o mal estar me venceu e voltei a deitar. Após o almoço melhorei consideravelmente, mas não a tempo de aproveitar. Mais tarde, por postagens do Facebook, vi que vários amigos queridos estavam lá, mas vi apenas alguns poucos que vieram até mim. Outros eu realmente não vi MESMO. Devo ter me passado por ingrata ou mal educada (apesar de que, se me viram e não vieram até mim, não tenho culpa total, não é? Reciprocidade), sei lá, enfim. 

Ao chegar na cidade, saí e outra coisa muito ruim aconteceu - não entrarei em detalhes - e vim caminhando engasgada pra não me passar por louca chorona no meio da rua. Chegando em casa, desabei. Eu tinha vontade de urrar de raiva, frustração, desistência, desconsolo e vontade de morrer mesmo. Os problemas têm sido pesados neste ano, um atrás do outro, sem trégua. Mas essa abstinência do remédio faz parecer que a vida não tem mais solução, e que o fundo do poço não é o limite pra desgraça do ser humano, e qualquer bobagem desestabiliza a gente. 

Bom, o fato é que o dia hoje está bem melhor. Nada que uma boa noite de sono não resolva. Os problemas estão ali, e há alguns que só o tempo irá resolver e outros que só posso esperar coisas que não dependem de mim para resolver. Então não adianta me entregar. E nem vou.

Sei que um turbilhão de problemas não é o melhor momento para abandonar um remédio desses - admito. Mas sei que eu precisava disso, e sei que era agora. Mas não, não aconselho ninguém a fazer isso. Se você mora em uma cidade maior, procure outro profissional e peça que te ajude com a descontinuação do medicamento. E se você não tem um mínimo de estabilidade emocional, jamais faça isso sozinho. Eu sabia o que me aguardava, e sabia que conseguiria superar. Nada me pegou de surpresa, e os sintomas estão bem mais leves que da primeira vez que fiz isso.

Então, tenham paciência comigo, visitarei a todos, mas não o fiz por esses dias por não conseguir mesmo. É um momento delicado, mas que já está passando. Ainda hoje pretendo visitar vocês todos, e durante a semana também. Mas o trabalho vem à frente nesse momento, e farei isso nos intervalos, não posso ser irresponsável com isso.

Mas agradeço do fundo do coração quem mesmo assim vem me visitar, deixar seu carinho, seu comentário, seu incentivo. Valorizo extremamente tudo isso! E retribuirei o carinho sempre que puder!

Beijão!
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