29/05/2015

Sobre educação, educadores e a valorização (ou não) de tudo isso

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Olá gente, tudo bem? Hoje quero falar um pouco com vocês sobre minha profissão, que é diretamente ligada à educação. Para quem não sabe, sou professora da rede pública estadual gaúcha de um quarto ano à tarde, e pela manhã supervisora educacional. Estou nessa há 12 anos, entrei muito novinha, recém saída do curso de nível médio de Habilitação ao Magistério. À época, minha nota foi a maior da minha região de abrangência, mas caí para a terceira posição após a prova de títulos, já que não tinha ensino superior. No segundo concurso que prestei, mais uma vez em primeiro lugar, mas dessa vez mantive a posição por ser melhor habilitada e ter curso superior e outros cursos de formação. Não cito isso pra dizer que sou inteligente ou o que quer que seja, mas para dizer que sou habilitada para meu trabalho. Conheço as leis que o regem, estudo filosofia e sociologia da educação e procuro me manter o mais atualizada possível, tanto que para o último concurso - considerado um dos mais difíceis já realizados para a categoria no estado - não tive tempo de estudar e ainda sim consegui esta ótima classificação. Isso porque não fico parada, e considero essencial à profissão me manter atualizada. 

Hoje, sexta-feira, vários profissionais da educação estarão paralisados em meu estado, muitos no país. Quem sabe eu esteja também. Os pedidos são os básicos: manutenção de nosso plano de carreira - que sim, está desatualizado, não nos gratifica proporcionalmente ao nosso empenho mas o medo de que nos tirem direitos nos faz preferir o que temos - aplicação do Piso Salarial Nacional e outros detalhes. Também contra a PL que trata da terceirização que em breve pretende atingir o serviço público. E sabe o que isso cria? Subemprego. Porque na miséria deste país (e não me venha com índices maquiados), encontraremos muita gente disposta a trabalhar - mesmo que porcamente - por um salário abaixo do que trabalhamos, e a desvalorização da habilitação vai se tornar ainda pior. Uma reflexão rasa, apenas para clarear as ideias. Se acho importante este tipo de ato? Acho essencial. Infelizmente ninguém nos olha ou percebe os problemas sem que haja este tipo de mobilização. É a triste realidade da grande maioria dos trabalhadores: só são vistos quando incomodam e atrapalham. 

Um professor geralmente só aparece em noticiários quando há um caso de agressão a um estudante, ou coisas do gênero. Ninguém faz matéria jornalística com um professor que faz um trabalho diferenciado e inovador (ok, fazem, mas são raríssimos os casos). Ninguém faz matéria quando um professor é rechaçado por alunos, ameaçado, agredido por pais. Só se comentam os casos de professores relapsos e despreparados - que sim, temos, como em qualquer outro segmento profissional. Acontece que este tipo de profissional é raro atualmente, mas como sempre uma parte ínfima faz a fama da categoria inteira. 

No final de semana o jornal Zero Hora publicou uma matéria com as faixas salariais atuais dos professores e para quanto o salário iria com a aplicação da Lei do Piso Salarial. Eu realmente não me importo que saibam o quanto eu ganho - vergonha é ganhar dinheiro ilícito, não ganhar pouco. A questão não é a exposição dos salários - o Portal da Transparência está aí para mostrar o salário de qualquer funcionário público. Mas a linha da matéria que frisou o quanto isso oneraria o estado, o quanto isso "quebraria" o estado, deixando explícito que somos apenas um gasto insustentável para a sociedade. 

MEU AMIGO SE EU SOU UM GASTO INSUSTENTÁVEL ME DEMITA. 

Simples. Demitam os professores. Bora cada um aprender em casa como na idade da pedra. Todo mundo faz questão de frisar o impacto da folha de pagamento do magistério nas contas do estado. O quanto somos um gasto. E ISSO É MUITO INJUSTO. Não, não fecho os olhos pra essa questão, pq somos sim a maior parte dos gastos com salários do estado. Mas deveríamos então ser desvalorizados por isso? É justo?

Bom, a lei do Piso Salarial Nacional diz que, caso o estado não tenha condições financeiras de pagar o salário dos profissionais, o governo federal deve complementar com repasse para esta finalidade. Até aí tudo bem, se o estado não tem dinheiro, o governo federal completa. Mas é aí que temos um problema. Para que o governo complete o que falta para pagamento dos profissionais de educação, o estado deve estar aplicando na educação os percentuais previstos em Lei. É algo do tipo "você faz a sua parte e então faço a minha". E a Lei define, no art. 212 da Constituição Federal, que os Estados, Distrito Federal e Municípios  devem aplicar no mínimo 25% da renda na Educação.

Art. 212. A União aplicará, anualmente, nunca menos de dezoito, e os Estados, o Distrito Federal e os Municípios vinte e cinco por cento, no mínimo, da receita resultante de impostos, compreendida a proveniente de transferências, na manutenção e desenvolvimento do ensino.

Acontece que o Estado do Rio Grande do Sul (e diversos outros) não cumpre a Lei. E então o Governo Federal não tem obrigação de fazer o repasse - poderia fazer, mas governo algum faz algo que não é obrigado a fazer, na verdade não fazem nem o que são obrigados, imagina se não forem. 

Sabe, a maioria das pessoas trabalha suas 8 horas diárias (ou 6, ou 12...), sai do trabalho e acabou. Um professor não. Principalmente um professor de séries iniciais, que mesmo tendo direito a hora atividade (horas que tu ficaria no trabalho fazendo o planejamento) não a faz. A gente chega em casa, atende rapidão a família, dá uma limpada meia-boca na casa, prepara algo pra comer e senta na mesa planejar a aula do dia seguinte e preparar material - o que, na maioria das vezes implica em gasto pessoal, dinheiro do próprio bolso. Ou, se optar por não fazer isso todo santo dia - opção minha, por exemplo - sentar num sábado à noite e domingo à tarde inteiros para planejar as aulas da semana. Isso sem contar as provas trimestrais, que dão um trabalhão danado pra corrigir, fechar média. Ou seja: a gente chega em casa e o trabalho não termina. Mas não pode receber um bom salário por isso, pq sabem, profissão de professor é "dom", e você não recebe para administrar seus "dons". 

Sobre questão salarial e promoções: quando um professor que só tem o curso de Habilitação ao Magistério entra, o salário é um caos. Quando ele faz uma graduação, esse salário quase dobra (justo!). Mas depois da graduação, pra ser bem sincera, a gente estuda porque gosta, por querer aprender e evoluir como ser humano. Pq uma pós graduação não chega a representar um ganho salarial de R$100,00. E depois da pós, tu pode fazer dez pós, mestrado, doutorado, pós doutorado que o salário não muda coisa nenhuma. Animador pra estudar né? Só que não. 

Sim, há profissionais despreparados. Há gente estressada também. Mas isso há em todos os lugares. Assim como há professores sem domínio de classe, há pais que quando chamados para conversar sobre as peraltices de seu filho de 8 anos soltam un sonoro "não posso mais com a vida dessa criança". E a gente pode meu amigo? Tem que poder né. E é justo julgar milhares por uns poucos mal exemplos, só porque estes chamam mais atenção? Não é não.

Pra finalizar, minha indignação por um vídeo que correu a internet essa semana, em que um aluno, negro, debocha da professora, passa a mão na bunda e peito dela e diz que ela não pode fazer nada. Por muito pouco ela não o agride fisicamente. Triste ver ela ali indefesa sem conseguir agir direito. Mais triste saber que se ela reagisse, se perdesse a cabeça - porque as pessoas têm limites - ela seria a errada, e provavelmente seria taxada como a profissional que agrediu o garoto por ser negro. Se o vídeo não viralizasse, ninguém ficaria sabendo. E cenas assim acontecem o tempo todo. Só quem é professor e já foi ameaçado ou esteve em uma situação de risco sabe o medo que dá na gente até de separar uma briga, porque se tu tenta separar e acaba segurando algum aluno com força, tu vai parar na cadeia ainda. 

Escrevo este post longo sim, mas com nem a décima parte do que teria a dizer, depois de ler muita baboseira nas redes sociais acerca dos professores. Uma generalização tão imbecil que me faz sentir o quanto a educação fracassa nesse país. E me sinto frustrada por isso, porque o futuro disso está nas minhas mãos e sou cobrada constantemente quanto a esse futuro. Mas jamais serei valorizada à altura da importância do meu trabalho. 

Beijos!

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