27/05/2016

Precisamos falar sobre o estupro

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Este assunto tem sido exaustivamente tratado nas redes sociais, sites e blogs. Eu tenho evitado postar sobre assuntos que acabam sendo polemizados, pelo fato de que o que eu escrevo nem sempre é o mesmo que você entende. Mas tendo um veículo de fala, não posso me omitir.

Todos sabemos do caso da menina estuprada por 33 rapazes nesta semana. Os motivos? NÃO INTERESSA! Não há uma única razão neste mundo que justifique um estupro. Nada, absolutamente NADA do que ela tenha feito justifica 33 monstros a terem abusado dessa forma (e ainda terem usado imagens do fato internet afora como um "troféu" da barbárie). Eles a abusaram. Filmaram. Fotografaram. E usaram as redes sociais como meio de proclamar ao mundo seu "feito" sob a certeza da impunidade.

Vivemos em um momento em que sair na rua desacompanhada é perigoso. Quando andamos na rua e, vendo homens vindo em nossa direção, não conseguimos não pensar na possibilidade de uma cantada ou abordagem violenta. Por mais que nos esforcemos, ainda tememos os homens, quando em desvantagem. Quando você anda sozinha à noite na rua (ou de dia, num lugar mais vazio), e vê um grupo de homens, você tem medo de quê? De ser estuprada. Porque essa é a "punição" que parece vir atrelada ao sexo feminino.

Apesar disso, eu não diria que existe a tal "cultura do estupro" - tema exaustivamente repetido e repetido redes sociais afora, muitas vezes sem nem sequer ter sido feita uma reflexão verdadeira sobre o assunto - em nosso país. Isso é muito sério. Dizer que há uma cultura do estupro, é o mesmo que dizer que nossos meninos são ensinados desde criança a estuprar meninas, como parte da educação do país. E se, sim, o desrespeito à mulher é entranhado em muitos desde cedo, o pensamento de que isto seria propagado quase como "de pai para filho", é um ir além da realidade. E se sim, há babacas trogloditas com o discurso de que se mulher usa mini saia merece ser estuprada sim, já há um número suficientemente grande de homens que repudiam este fato, suficientemente grande para que não percamos tempo neste tipo de generalização. Das coisas que eu mais repudio, a generalização toma o topo da lista. Quando se reflete, não se generaliza. Se sempre julgarmos todos por um só (ou por muitos, que seja!), acabamos apenas aumentando as injustiças que já existem nesse mundo. E bom, volta pro foco Denise, que se parar nesse tema vamos longe!

Mesmo eu não concordando com a "cultura do estupro", é palpável que existe sim a cultura da impunidade. A certeza de que a violência sexual, quando tratada pelos órgãos de segurança, ou acaba em impunidade, ou a punição é tão branda que quase faz o ato valer a pena. A cultura do "segura suas cabra que meu bode tá solto" - a mulher como "caça", o homem como "caçador". Sim, há uma cultura machista tão entranhada, que impregna mesmo a nós mulheres, por mas cabeça aberta que procuremos ser. Muitas vezes nós mesmas nos pegamos pensando ou agindo de forma machista. Mas quando nos abrimos, e procuramos desfazer estes nós que nos descem goela abaixo desde jovens, vamos adquirindo a consciência necessária para perceber isso a tempo. 

E dito isto, permitam-me compartilhar uma experiência. Há alguns dias, alguns alunos da escola onde trabalho foram enviados para a sala de mediação a fim de resolver um problema causado por meninos passando a mão nas meninas. Achei o máximo as meninas, ainda novinhas, brigando pelos seus direitos! Ouvi frases do tipo: "O meu corpo é MEU, você não pode passar a mão nele!". Mas infelizmente precisei também ouvir de um dos meninos que o motivo de terem feito aquilo é que "nós queria humilhar elas![sic]". Crianças, de 10 anos em média.

Passando do discurso à prática, o ponto é: o que fazer? Primeiramente: GRITAR. Sim, gritar aos quatro cantos que enquanto pudermos fazer barulho, faremos. Confrontar o tio da obra que te canta quando você passa na frente - e ele que te ache louca, dane-se. Ensinar nossas meninas a não baixarem a cabeça para estes abusos - e isso se faz também através do exemplo da família. Mas PRINCIPALMENTE, ensinarmos nossos meninos a respeitar as mulheres. Eles devem ser nosso principal ponto de trabalho. Se queremos igualdade, devemos ensiná-los que homens e mulheres têm direitos iguais. Que devemos RESPEITAR. Saber ouvir, aceitar e respeitar o NÃO. Que o sexo só deve ser feito com consentimento de ambas as partes, e que esse consentimento não deve vir do álcool por exemplo (quem nunca soube da menina que estava bêbada demais pra dizer não?). E creio que esta é nossa tarefa mais difícil. Porque sim, muitos ainda sustentam discursos de inferioridade da mulher. E lutar contra isso é uma tarefa árdua.

É claro que sabendo que a mulher DEVE ser respeitada sempre, que tem o direito de SER e FAZER O QUE DESEJAR sem ser julgada, ainda sim precisamos deixar de lado a ingenuidade de querer viver hoje como se o mundo já tivesse alcançado este patamar de civilidade. Há um longo caminho até isso acontecer. Ainda é preciso sim evitar alguns lugares, ter cuidado no sair às ruas, procurar andar sempre acompanhada, em grupo. Não adianta ensinarmos nossas meninas a serem protagonistas fechando os olhos para os riscos que, infelizmente, elas ainda passam. E é claro que isso pode fazer com que alguns tomem essa minha fala como machista (há quem não saiba perceber o meio-termo necessário). Mas este é algo que ainda precisamos fazer SIM. Evitar, sempre que isso for possível, que fiquemos à mercê de bandidos deste gênero.

Apesar de casos como este ainda acontecerem (e não serem tão raros, infelizmente), e de muitas pessoas só se manifestarem nestes momentos mais graves, já andamos um bom caminho em direção a essa civilidade que desejamos. É claro, não dá para ser tão positiva a ponto de não saber que há um caminho imenso ainda pela frente. E que depende de cada um de nós para ser percorrido. Que seja a passos de formiga. Mas que seja. 

Encerro este post com uma iniciativa muito bacana do Spotify (serviço se streaming de música), que fez uma playlist denominada #estupronãoéculpadavitima . Vejam a lista das músicas em ordem, e a frase que o nomes das músicas forma:


"Hoje 33 homens fizeram o que fizeram e nem desculpa eles pediram. Hoje queremos ver justiça. Queremos saber até quando isso vai acontecer no Brasil. Onze minutos e uma mulher abusada. Quem são os animais? Chega, o tempo não apaga toda essa dor. Vamos gritar bem alto! Vocês não ficarão sozinhas."

Beijão!

Obs.¹: é preciso dizer que o termo "cultura do estupro" vem lá dos anos 70, e se referia à cultura machista que incentiva a violência contra a mulher. Essa cultura existe SIM, mesmo que muitas vezes de forma velada, em nossa sociedade. Infelizmente o termo "cultura do estupro" que vem sendo discutido neste momento se refere a uma cultura de incentivo ao estupro, como comentei no texto. Isso se deve ao fato de as palavras terem vida própria, o que significa que não podemos criar um termo e querer que ele signifique o que desejamos. Ele significa aquilo que as palavras trazem à mente de todos, principalmente à mente de quem não conhece a origem dele e,portanto, é veiculado e popularizado, muitas vezes, de forma diferente do original, simplesmente porque é o que o termo significa, dadas as palavras utilizadas para compô-lo, quando se tira o significado a ele imposto por quem o "criou". 

Obs.²: acho importante também pontuar, que este é um pensamento em construção. Acho que neste campo não podemos nos dar ao luxo de ter certezas. É o que penso hoje, e isso pode mudar. Dou-me sempre o direito de mudar, de refletir. Quando falamos em assuntos deste tipo, precisamos dessa reflexão constante, que não desconsidera a opinião do outro, mas que dá espaço para a discussão e, porque não, do mudar de ideia.
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