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Sobre como a depressão me pegou em cheio e eu nem percebi

17:39Denny Baptista

 



Este será um post longo, já aviso. Este blog começou como uma fonte para registro de coisas que eu gosto e de mim mesma. E este registro é necessário.

No dia 1º de março, quando entrei para a lista de pessoas com suspeita de terem contraído a COVID-19, entrei com o pedido de licença saúde de 30 dias. Tenho mais de 18 anos de trabalho e nunca havia tirado licença saúde. Apenas alguns atestados pontuais. Eu tenho uma tendência nata à melancolia, ao pessimismo. Sou bastante emotiva, me entristeço com facilidade, mas também tenho muita garra, esqueço a tristeza rapidamente e levo a vida adiante mesmo em momentos muito difíceis - e eu já passei por situações muito, muito difíceis. Como todos nós, aliás. 

Em 2019 eu precisei voltar a tomar medicação para ansiedade, pois além da alta carga de trabalho, da minha rotina muito atribulada, eu estava trabalhando com uma turma com muitos desafios - além de uma das turmas ser bastante indisciplinada e eu ter dificuldade na colaboração das famílias para melhorar isso, eu tinha dois alunos que tinham problemas de ordem psiquiátrica, muito instáveis, que eventualmente "surtavam" e batiam em tudo e em todos se eu permitisse. Eu não permitia, claro, mas já saí machucada dessas situações algumas vezes, pois precisava contê-los para proteger os colegas. Então me percebi com a ansiedade exacerbada. Quem sofre com a ansiedade patológica sabe o quanto isso vai bem além do "passar nervoso" ou da ansiedade comum do dia a dia e de momentos pontuais. Entendi que precisava de ajuda e busquei um psiquiatra, ajustamos o tratamento e tudo se alinhou. Eu disse "ajustamos", porque eu já havia tratado a ansiedade há anos atrás e não gostava dos efeitos adversos da medicação que utilizei, que me deixava muito apática. Eu não quero amortecimento das sensações e sentidos, quero apenas poder manejar a ansiedade bem. E conseguimos uma medicação que fizesse isso por mim. 

Então chegou 2020 com uma bomba, uma pandemia que hoje se mostra ainda muito pior do que quando começou - apenas nos "amortecemos" e nos habituamos ao caos. Foi o ano mais desafiador da minha vida no trabalho - e olha que eu tive muitos anos que achei terem sido os piores. A didática de trabalho mudou totalmente, as aulas online vieram com tudo, a sobrecarga de trabalho se tornou impossível, alinhar as expectativas/exigências das famílias e da administração escolar para algo que fosse possível de fazer foi um verdadeiro desafio. Foi um ano que teve muito choro, teve crises de ansiedade, teve vontade de desistir. Mas ao final, apesar das cicatrizes, o resultado do ano letivo foi muito além do esperado - conseguimos alfabetizar na pandemia. 

Mas no decorrer do ano, o cansaço foi me fazendo deixar de fazer muitas coisas. Eu frequentemente deixava de fazer o almoço para dormir ao meio dia. Então meu marido assumiu a cozinha aqui de casa. Ele fazia o almoço, eu comia e ia dormir - às vezes nem os dentes escovava. Também fui deixando a louça "para depois". Passei a dormir mais que o habitual, eu estava muito cansada. Fui me descuidando nos cuidados da casa, com a desculpa de que era toda a parafernalha montada para transmitir as aulas de casa que a deixava assim. Fui me descuidando de mim. O iFood foi ganhando vez, o peso foi aumentando. Eu ganhei uns 15kg nessa pandemia - mas já havia ganho muitos outros nos anos anteriores. Sim, voltei à estaca zero no quesito peso. 

Não perdi nenhum familiar próximo para o vírus.

Não fui contaminada.

Não perdi meu emprego.

Do que eu poderia reclamar?

Não pudemos passar as festas de final de ano com nossos familiares, pois tivemos um evento presencial na escola no dia 18 de dezembro, o que nos impediria de fazer o isolamento necessário para nos sentirmos seguros de ir vê-los sem levar o vírus. Passamos sozinhos, marido e eu. Conseguimos ir, mas passamos metade das férias isolados em casa. 

Eu também fui convocada para auxiliar na pré alfabetização das crianças, pelos bons resultados alcançados até então e assumiria a pré-escola. Um novo desafio, pois eu nunca trabalhei com alunos tão pequenos e nem me acho apta para isso. Mas desafios são para isso mesmo, eu nunca recuso um - mas esse eu quase recusei.

2021 chegou também com o desafio do ensino híbrido - atenderíamos alunos em sala de aula ao mesmo tempo que alunos no formato online, com aulas transmitidas ao vivo em tempo real. E, bem, percebemos, meus colegas e eu, que este ano seria ainda mais difícil que 2020. As famílias que ficariam online esperavam o mesmo atendimento do ano passado, quando nossa atenção estava focada totalmente na tela. E isso não seria possível, de forma alguma. As aulas começaram no dia 1º de fevereiro.

E foi aí que eu comecei a "bugar". Alguns dias após o início, tive uma crise de labirintite bem forte numa segunda-feira. Passei o dia deitada à base de Dramin. Na terça-feira voltei trabalhar e segui normalmente, brincando com as crianças, pulando, levantando, abaixando. E na quarta-feira a crise voltou, mais forte ainda. Eu estava na escola, antes da aula começar, na sala dos professores, quando sentei no sofá e senti o mundo começar a girar. A vertigem era muito forte. Compraram Labirin para mim em uma farmácia próxima, mas o efeito foi zero. Insisti em ficar na escola até por volta das 10h, quando liguei para meu marido e pedi para me buscar, mas para trazer Dramin com ele. No estado em que eu estava não conseguiria ir para casa de carro. Ele veio, tomei o remédio, esperei começar o efeito, fui para casa. No início da tarde, fui para a emergência da Unimed, fui atendida rapidamente, medicada e fui para casa. Fiquei deitada, dormindo a maior parte do tempo, em um quarto escuro, até sábado. No sábado e domingo melhorei, mas a luz ainda me fazia ter vertigens, então fiquei no quarto escuro mesmo assim. 

A próxima semana de trabalho trouxe outros problemas. Eu acordava muito enjoada todos os dias, minha pressão oscilava muito, ora baixa (8/5) ora alta (14/10). Palpitações, coração acelerado em algumas vezes. Bom, com minha obesidade, eu já imaginava que enfim havia conseguido uma síndrome metabólica para chamar de minha. Mas conseguir consulta numa Florianópolis pipocada de COVID era um desafio. Teve um dia que eu passei mal, com náuseas e tudo o mais até por volta das 9h30 quando melhorei e fui dar minha aula. Cheguei a fazer um teste de gravidez, apesar da infertilidade. Negativo, claro. Nesse meio tempo, alguns casos de coronavírus pipocando aqui e ali na escola, uma colega doente que estava no oxigênio e, apesar de tomarmos todos os cuidados, a preocupação constante era algo forte.

Foi então que, num belo dia eu acordei, escovei os dentes e fui tomada por uma crise de pânico paralisante. Meu coração parecia que ia sair pela boca, uma sensação de que algo horrível ia acontecer começava a tomar conta de mim, meus braços pernas amoleceram e começaram a formigar, a sensação de morte iminente era horrível. Percebi ali o que estava acontecendo. Consegui uma consulta por vídeo com meu psiquiatra, que dobrou a dosagem da minha medicação e prescreveu Rivotril para as crises. No dia seguinte, pela manhã, uma nova crise. Tomei Rivotril, demorou um pouco mas a crise passou. Só que eu passei o dia todo me arrastando pela escola. E a energia que eu dispendia em parecer animada e bem para as crianças exauriu minhas forças. Quando meu marido veio me buscar ao final do dia, entrei no carro e chorei copiosamente. 

Na manhã seguinte uma nova crise. Percebi que eu não conseguiria fazer aquilo mais um dia, dar aula à base de Rivotril. Tirei dois dias de atestado, até a medicação "pegar". Nestes dois dias, fiquei relativamente bem. Após a mudança na alimentação, como num passe de mágica, os enjôos e oscilação de pressão passaram completamente. Era pura ansiedade, quem diria. No dia de retornar à escola, acordei e tive uma nova crise. Pra ajudar, eu estava com sintomas gripais, já havia passado pela triagem e constava como caso suspeito de ter contraído o coronavírus. Aproveitei o afastamento deste dia e mais uma vez conversei com meu psiquiatra. E foi aí que surgiu o transtorno misto de ansiedade e depressão na mesa. Eu falei pra ele que a ansiedade ok, mas depressão? Que motivos eu teria? Minha família passara praticamente ilesa pela pandemia, não adoecemos, não perdemos ninguém, tínhamos nossos empregos, como eu ousava ter depressão num quadro privilegiado desses? Foi então que, com muito carinho, ele foi construindo isso comigo. E então, em conversa com ele, e com a direção da escola em que trabalho, que estava bem preocupada comigo, optei pelos 30 dias de afastamento.

E então, depois do 3º dia em casa eu fui me dando conta do tanto de coisas que eu deixei de fazer. Deixei de cozinhar. De fazer caminhadas. De ler. De arrumar a casa. De me cuidar. Passei a dormir demais. A ficar demais no celular. Deitada quase o tempo todo. Percebi o quanto a vida parecia não ter mais tanto valor, o quanto estar aqui parecia mais importante pelos outros que por mim. E vou dizer, foi duro me dar conta disso. Duro mesmo. 

Ainda estou num processo de aceitação. Tentando respeitar meu tempo, mas também tentando "me ajudar". Vivendo um dia de cada vez, procurando fazer pequenas coisas e ficando feliz por isso. Na quinta-feira consegui fazer um jantarzinho e lavei a louça. No sábado fiz o almoço, e confesso que foi difícil, demorei muito pra fazer, pois a ansiedade ficava à espreita e então eu me forçava a fazer tudo lentamente para controlá-la. Mas saiu. Então agora eu consigo ver tudo o que eu deixei de fazer por estar sempre "cansada". Principalmente porque fazer coisas simples me cansa demais. Não fisicamente, é um cansaço mental mesmo. 

E realmente, temos a ideia de que a depressão chega e nos derruba na cama chorando, sem banho e descabeladas. Às vezes ela é mais sutil, e por isso mesmo vai se instalando sem que percebamos. Eu não percebi. Fui aceitando esse cansaço como algo natural do dia a dia e não, da forma como eu vinha sentindo, não é  natural.

Bom, agora terei 30 dias para me reerguer. 23 para ser mais exata. Hoje parece que não vai dar tempo. Mas eu entendi que eu não posso prever meu futuro com base no meu hoje, pois o meu hoje está nublado pela doença. Mas vai dar certo. 

Bjs

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