17/02/2014

Até breve vó

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A quinta-feira havia sido fria e ventosa. Muito ventosa. Ao anoitecer, vó Dolores partiu com o sol. O vento e o frio pareciam embalar nossa tristeza. Uma tristeza conformada, porque o sofrimento cessado traz uma ponta de alívio pelo ser que para de sofrer. Mas uma partida é sempre triste. Guardamos seu corpo na madrugada, como que querendo que a visão dela ficasse um pouco mais em nossa memória. E a chuva fininha começou a cair lá fora, junto com o vento ainda persistente.

Na sexta-feira, minha vózinha Dalty acordou para ir ao banheiro, e não conseguiu caminhar. Já tinha problemas de locomoção há bastante tempo. As filhas lhe mediram a pressão sanguínea: perfeita. Batimentos cardíacos: perfeitos. Mas decidiram levá-la à emergência do hospital para garantir. A médica plantonista bateu o olho nela e afirmou que ela estava tendo um AVC. Na tomografia, foi confirmado o AVC que, infelizmente, era hemorrágico. 

Enquanto isso minha mãe e algumas irmãs continuavam a conversar com ela, sem dar a entender a gravidade do caso. Minha vó era, como ela mesma dizia, "muito vil" para o sofrimento. Qualquer dorzinha era sentida ao máximo por ela. Detestava e não sabia sofrer. E ficava apavorada, por isso preferiram não avisá-la. Os médicos optaram por transferi-la para o hospital de uma cidade maior, Passo Fundo, com mais recursos, onde um neurocirurgião a esperaria.

Fui avisada do quadro dela, enquanto estava no funeral da outra avó - a do meu marido.  Fiquei muito apreensiva. Sabia que os 83 anos da minha vózinha já estavam pesados pra ela, cada dia mais lenta e já usando bengala. Pedi a Deus que cuidasse dela.

Enquanto isso, no hospital, preparavam tudo e a ambulância do SAMU para transferi-la para outra cidade - ambulância que levou horas para aparecer, diga-se de passagem. Minha mãe conversava com ela o tempo todo, nossa, como a vó conversa, rs... E ela foi falando cada vez mais baixinho, mais baixinho... e então entrou em coma. Foi com minha mãe que ela falou pela última vez. Na ambulância,  a caminho de Passo Fundo, outro AVC. E então, a partir daí, só os aparelhos a mantinham viva, na UTI do Hospital São Vicente.

Quando um pastor dizia algumas palavras de despedida sobre o caixão da vó Dolores, eu recebia, por SMS, o aviso de meu pai de que as chances de recuperação da minha própria vózinha seriam de cerca de 10%, com seqüelas. E então chorei pela despedida da vó Dolores, e pela provável partida da vó Dalty.

Sepultamos a vó Dolores no meio daquela ventania toda. Na missa, realizada na pequena igrejinha dos Três Sinos, no interior, o vento parecia querer entrar janelas a dentro. Os vasos e as coroas de flores precisaram ser reorganizados diversas vezes em cima do túmulo fechado, pois o vento não queria os deixar em pé.  Comecei a organizar algumas coisas para ir a Palmeira, ficar junto da minha família. Optei por ir no dia seguinte à tardinha, para descansar um pouco do funeral anterior. Descansar foi a última coisa que fiz. Checando o celular a cada momento, ouvindo sinais de mensagem de texto que não houveram. O nervoso tomou conta da minha noite.

Na metade da manhã recebi a notícia de que havia 100ml de sangue em seu cérebro, comprimindo e causando mais estragos a cada minuto. Que, no caso de seu corpo resistir, ela vegetaria. Meus tios a visitaram, um a um, exceto uma tia que não conseguiu chegar a tempo, mesmo pegando o primeiro vôo - mora no MS. Minha mãe e tios assinaram o termo que autorizava a equipe a não ressuscitá-la caso tivesse alguma parada cardíaca. E agora só restava esperar.

Nem imagino a dor que minha mãe e tios sentiam nesse momento, porque a minha dor já me parece tão infinita... Pronta para ir viajar, lá pelas 17h, meu pai me liga: "Mana, aconteceu." E foi assim. Ela já havia falecido há algum tempo, mas ainda a tentaram reanimá-la por cerca de 20 minutos. O médico demorou a ir assinar os papéis finais e só então avisaram a família, com tudo já organizado.

E assim, a vó descansou. Não sofreu - ela que não sabia sofrer. Nem percebeu que havia tido um AVC. E nesse sentido não posso agradecer mais imensamente a Deus. Viajei até lá, a viagem mais comprida que já fiz. Cheguei na casa dos meus pais e o corpo ainda não havia chegado. Quando chegou, meus pais me avisaram e fui rumo à funerária, o velório seria realizado na capela da mesma. Fui sabendo que seria um momento difícil, mas não imaginei que seria tanto. Mal desci do carro e, ao ver a porta aberta e o caixão, meu peito se rasgou. E eu, que planejava ser tão contida, não vi mais ninguém ao meu redor. Sei que abracei minha prima logo à entrada e mais algumas pessoas que passaram à minha frente para me dar as condolências, mas eu só via ela. Um pingo que restou dos meus bons modos me fez abraçar minhas tias, que estavam ao redor do caixão, antes de tocar a mão dela. Fria, gelada, sem vida. Minha vozinha doce. Aquela que nunca foi capaz de me magoar com uma palavra sequer... que tinha doçura até nos "sermões" que me dava quando esquecia de pedir sua bênção. Que jamais ergueu a mão pra me dar um tapa sequer. E que me irritava profundamente quando batia incessantemente na porta de casa num domingo, às 9h da manhã e chamava: "Acordem seus preguiçosos, chega de dormir! Que gente que dorme!". Sim, ela era danada, rs...

Então minha mãe chegou até mim - eu nem sequer a havia visto - e me deu um abraço dolorido, que criou uma dor nova em mim: a de ver minha mãe com o peito mais rasgado que o meu. Ela balbuciou algumas palavras que eu não entendi e, se entendi, não me lembro. Cumprimentei mais algumas pessoas, conversei um pouco, chorei no ombro do marido - ele cheio da sua própria dor, tentando consolar a minha. E o tempo foi passando assim. Tanta gente lá! Antes de nós mesmos chegarmos, já havia pessoas de outras cidades esperando pra velar a minha vozinha. Sim, ela era muito querida por muita gente, acho que mais do que ela própria pensava. Nossa família - a família Fortes - é muito unida nesses momentos. Um funeral é a hora em que pessoas que mal se vêem no dia a dia deixam tudo de lado para apoiar uns aos outros. Quando fui pra casa descansar, lá pelas 4h da manhã, haviam mais de 30 pessoas na capela, fora meus tios, pai e primos. E o frio incompatível com a época, e o vento cortante continuavam!

No outro dia, voltei lá, achei que já estaria melhor, mas ver ela ainda doía demais. Quando o pastor chegou, eu sabia que seria o fim dessa fase. E é estranho, mas eu não queria que terminasse. Ver ela doía demais, mas saber que não veria mais era ainda pior. Enquanto todos cantavam, meu peito doía ainda mais. Então o momento pra última despedida. Peguei em sua mão fria... beijei seu rosto... ela parecia dormir tão tranquilamente... Então fecharam o caixão. O cortejo foi dolorosamente silencioso. O último hino cantado na beira do túmulo... seu caixão baixando à terra... o túmulo sendo selado... e acabou. E doeu. E enquanto eu sentia meu peito sangrando, abraçava minha mãe com a consciência de que essa dor não deveria ser 1% da que ela mesma estava sentindo - e ainda sim parecia tão mais forte que eu!

Subimos no carro e na volta, olhei para o céu. Após enterrarmos nossos queridos, o vento havia cessado. Se foi junto com eles.


Amanhã os posts do blog voltarão ao normal. Ou depois de amanhã. Hoje que precisava desse último post pra pôr um ponto final nessa etapa - até onde ela possa ter um ponto final. Agradeço pelas palavras de carinho de todos, muito, muito. Obrigada!
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